quarta-feira, 5 de outubro de 2016

AD.COR & (S)ALTEADO



Saber «ad.cor e salteado…» saber a lição de coração…

E do coração vem a poesia… a inspiração que se sente a bater forte, a alma que vibra ao ritmo do Universo… condensada num poema ou num simples verso ou mesmo numa única palavra… Neste caso a palavra Mulher com M maiúsculo.

Uma escrita irrepreensível, uma obra dedicada de e por amor à poesia e à literatura. Uma voz que se ouviu em tempos idos a nível nacional, voz hoje adormecida na memória colectiva.

Um espírito tão grande como gracioso. Foi assim desde a sua juventude até ao fim da caminhada.

É isto o que sinto quando leio os poemas de Natércia Freire.

Natércia Ribeiro d’Oliveira Freire – nasceu em 28 de Outubro de 1919 em Benavente e viria a falecer, em 17 de Dezembro de 2004.

Uma mulher que se distingue pela sua obra a qual convido à (re)descoberta para que a sua voz não se extinga, para que seja lembrada e conhecida… para que justiça lhe seja feita…

A Câmara Municipal de Lisboa prestou recentemente homenagem a Natércia Freire, enaltecendo o seu nome numa artéria da cidade (na freguesia de São Domingos de Benfica – Rua Natércia Freire).


POEMA DE AMOR

Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
sem relógio nem espaço proibido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
nos sorriem, nos dizem: Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de águas vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.



Bibliografia «(…) Da AUTORA:

Poesia
Meu Caminho de Luz (1939); Estátua (1941); Horizonte Fechado (1942);
Rio Infindável (1947); Anel de Sete Pedras (1952); Poemas (1957);
Poesias Escolhidas (1959); Liberta em Pedra (1964)
Poemas e Liberta em Pedra (1967); A Segunda Imagem (1969)
Os Intrusos (1971); Liberdade Solar (1977); Obra Poética I (1991);
Obra Poética II (1994); Antologia Poética (2001)
Publicada Postumamente
O Livro de Natércia (2005)
Poesia Completa (2006)
Infância de Que Nasci (2006)

Prosa
A Alma da Velha Casa (1945); Infância de Que Nasci (1955)
Solidão sobre as Searas (1961); Jardins de Lisboa (edição da CML em
Português, Francês e Inglês, s/d); Ser ou não Ser pelo Amor Livre (1975)

Ensaio
Influência do Ultramar na Poesia (1963)
Organização de Antologias
Ribatejo: Antologia da Terra Portuguesa (s/d)

Obras Traduzidas
Poèmes Portugais (seleção de Rio Infindável, Horizonte Fechado e Anel de Sete
Pedras, Bruxelas, tradução e ilustrações de Bem Genoux, s/d)
Traduções
Rosamond Lehmann – Uma Nota de Música
Charles Dickens – As Aventuras de Pickwick
Pirandello – Para Cada Um Sua Verdade (em colaboração com Maria da
Graça Freire)
Arthur Miller - Do Alto da Ponte
Philippe Hériat - Apesar de Tudo!
Anton Tchékov – A Gaivota (a partir da versão francesa de Elsa Triolet) (…)»

( bibliografia retirada de:   «Toponimia_Lx_Natercia_Freire.pdf» )


Algumas obras de Natércia Freire têm vindo a ser publicadas pela Quasi Editora que tem feito um trabalho exemplar na divulgação do espólio da poetisa.

Recentemente (Maio de 2016) surgiu a oportunidade de participar num concurso de poesia (sob o pseudónimo de Miguel Silvestre): «Prémio Nacional de Poesia – Natércia Freire» promovido pela Câmara Municipal de Benavente.

É o resultado deste meu esforço em participar que se apresenta neste blogue criado de propósito para o efeito e que pode ou não reflectir o pensamento da poetisa. Os poemas apresentados são da minha autoria e reflectem isso sim aquilo em que acredito e defendo.

Alguns dos poemas foram revistos na consistência (acrescidos de versos ou modificados outros) tendo o texto original sido acrescentado de mais dezasseis novos poemas finalizando-se desta forma este projecto que havia sido enviado a concurso incompleto na intenção original que motivou a sua criação.

Bem Hajam a todos…

Loulé, 05/10/2016

ESCRYPTOS


Descansava o meu olhar errante
Pousando no teu corpo como borboleta
Errante vagueava atento sussurrante
Com olhos de luz e de profeta
E antevia esses doces carinhos
Esses desejos de mais e mais miminhos
Como se tu fosses feita de papel
E eu escrevendo no teu corpo absorvente
Fosse tinta azul ou preta

E caneta de tinta permanente…

LUSCO-FUSCO


Era fim de tarde
E a noite obscura
Aproximava-se a passos largos
Na sua loucura
De pintar de negro
A nossa Gaia
Sobrevoava o meu pensamento
Essa ternura
A calma soprava com o vento
Prometendo a noite no descanso
Alento, vento ameno, manso…
Que dava sentido

Ao nosso tão desejado remanso…

PAIXÃO


Feito de palavras era o teu corpo
Feito de fragmentos do meu ser
Eu que te desejava absorto
Antevendo esse final
Esse prazer
De te possuir mais uma vez desperto
Sem ser em sonhos de poeta
E ter-te agora mais ao perto
Onde te trago recordada
Num poema final que te retracta
Tão doce, tão serena

E dedicada…

IN EX CELCIUS


Deus e só Deus esse Amor conhece
De tão grande esplendor infinito
Condensando toda a matéria num só Grito
Amai de vontade e de desejo
Peço-te então só mais um beijo
Peço-te do fundo do coração
Para que sejas de mim o teu desejo
E eu de ti

Amor e Paixão…

MKL


Abruptamente termina aqui esta história
Mesmo antes de começar
Para que sejas de mim
Essa Glória
E eu a tua Luz
O teu olhar…
Vem até mim hoje novamente
Transporta-me nas tuas asas de Arcanjo
Para que depois eu te sussurre um beijo
Ganhando assim esse ânimo de anjo
De voar nas asas de um outro ser
Que nos transporta apertados junto ao peito

Frutos da imaginação e do desejo…

BARRO


Moldas essa terra esse barro
Fazendo-me homem e mulher desse pó
Dás-me um coração que bate forte
Soprando-me pela boca animado
Feito em tema, desconcertado
Sou a tua criação, só…
Para depois teres-me ao teu lado
Fazendo-te companhia neste Universo
Para te conhecer espírito desejado
Pelas palavras do profeta

Num condensado verso…

*** *** ***


Vem até mim Senhor eu que procuro
Com ansiedade nessa Loucura
Uma reposta que extinga a dúvida
Que em muitos corações perdura
Vem até mim eu que te hoje chamo
Amai esses seres que duvidam
Que te atacam como serpentes
Estendendo-te vilipendiosas armadilhas
Vem até mim Pai hoje novamente
Faz do meu corpo uma lança em chamas
Crava-me naquela terra que sangra
Faz-me em pó e novamente em lama
Para que devolva tudo o que me deste
Para poder estar contigo hoje

Descansando à sombra de um cipreste…

PAI


Pai escuta mais uma vez este meu Grito
Este desespero que me aperta a alma
E me sufoca mantendo-me constrito
Fazendo-me perder o ânimo… a fala…
Pai escuta este meu lamento
Este meu pranto…
Este meu choro em lágrimas feito
Pois estou calado de coração desfeito
Não tenho paz, nem mais vontade
Quero-me unir a ti que és VERDADE
Respirar-te mais uma vez no rosto
E depois voltar à terra funda
Tornando-me em sangue, vinho tinto

E mosto…

ENCANTAMENTO


Vieste devagar bem de mansinho
Até à minha beira navegando
Vinhas rindo e eu perdido
Sem te conhecer vinha chorando
Cruzámos vidas, as nossas vidas…
E tu sempre com essa mestria
Segredavas-me ao ouvido
Tudo aquilo que eu não queria
Ouvir tudo em desatino
Por ser noite
E tu seres dia…
E eu chegando finalmente perto de ti

Ver-te novamente partindo…

O ESPELHO


Cruzámo-nos no olhar
No teu olhar… , … No meu olhar…
Sedentos de esperanças e de desejos
E mesmo antes de começar
Trocámos doces e ternos beijos
Tu …caminhavas segura
E eu seguro de mim caminhava…
Via em ti eloquente doçura
Candura, alento, loucura…
E tu vias o mesmo em mim
Sempre que para o espelho olhavas
Cheia de vontade, banhada em lágrimas

As mesmas com que a fronte lavas…

IMAGINÁRIO


Imagina que a vida não é assim concreta nem simples
Imagina que é complexa, passageira, breve
Imagina que é abstracta, teatral teatro que mata
Imagina que a vida não é cara nem barata
Imagina que é loucura e também solidão
Imagina que é inferno desde o berço ao caixão
Imagina que é efémera como efémero é este poema
Imagina que só sobreviverá pela tinta e pela caneta
Seja ela, azul, vermelha, verde ou preta…
Seja ela texto em prosa ou poema
A vida torna-se assim tema moldado na folha alva
Em palavras alfabetizadas lavradas de mãos seminuas
Vestidas apenas com uma caneta

Pelas mãos minhas, palavras tuas…

[ A ]


Amor que o amor chama a si benquisto
Amizade que se constrói destemida
Amigo que se quer na despedida
Antigo barco hoje feito casebre
Amigo que se quer alegre
Altar onde se coloca o pão
Avinhado hálito que se solta
Abarcando tudo à sua volta
Antiga questão tornada contenda
Ânimo… quando as forças se vão…
E Cristo que a sua cruz carrega até ao Calvário
No fim da procissão ressuscita agora em Jubileu…

Por amor ao Glorioso Pai do Céu…

DOMINGO


Dia de descanso abençoado
Ao fim do dia que se aproxima
O céu arde inflamado
E os cães uivam em agonia
As flores recolhem as suas pétalas
As mulheres fecham as janelas
As crianças caçam borboletas
E as mulheres jovens apresentam-se belas
Dá-se as boas vindas à noite
Que chega entrando de mansinho
O Sol ao longe esconde-se risonho
E os pássaros cantam no ninho

MAGNIFICAT


O canto das aves mavioso
Sobe aos céus alegremente
E esses Anjos de um Céu portentoso
Lançam das nuvens esse alimento
Essa água cristalina abençoada
Que faz nascer esperanças sem fim
De flores, de pastos, de alecrim
Pintando essa terra amada
Criada por Deus como Jardim
E esse orvalho que alimenta
Tudo aquilo que toca ao seu passar
De manhã refresca e sustenta

Até que uma outra noite chegue ao desejar…

SEM EIRA NEM BEIRA


Sem eira nem beira sem princípio nem fim
Sem eira nem beira pedia num jardim
Uma alma penada, um homem condenado
Sucumbindo à morte, cantando o seu fado…
Sem eira nem beira, morreu num coreto
Uma alma coitada, pintada de preto
Sem eira nem beira, andava lentamente
Um pobre diabo em figura de gente
Sem eira nem beira, morreu na avenida
Um pobre desgraçado, que deu a partida
Num circo embarcado, em luzes de néon…
Girando, girando num rodopiar de morte

Sem eira nem beira, um homem de pouca sorte…

O CABO DAS TORMENTAS


Dobrei esse cabo infame, dobrando as próprias dores
Em chamas inflamado cheio de vontade… louco
Ardendo ao Sol que brilhava, cheio de sede, cheio de sal
Dobrei esse cabo infame, que me desejava mal
De velas enfunadas a todo o pano…
De braços erguidos aos Céus…
Vi-te amor bem lá no Alto
E soube que estavas com Deus…
E segredando ao ouvido de outros irmãos meus
Disse-lhes:
- Porque estou vivo?
- Porquê eu? Deus Meu? Meu Deus?

GLÓRIA


Glória a vós Senhor que enches estes campos de vida
Glória a vós Senhor que nos acompanhas na despedida
Glória a vós Senhor, Senhor que dás a vida benquista
Glória a vós Senhor, que nunca nos perdes de vista
Glória a vós Senhor, que em ti acreditamos
Glória a vós Senhor, nós que te amamos
Glória a vós Senhor, pelo passar dos anos
Glória a vós Senhor, que nos concedes mais um dia
Glória a vós Senhor, que te iremos ver um dia
Glória a vós Senhor
Glória a vós Senhor
Agora e para sempre mais além…

Ámen

SONHO


Adormeci nessa noite de luar na qual te desejava
E mal fechei os olhos contigo sonhava…
Vi-te vestida de branco correndo pelos campos fora
E sempre que fecho os olhos, vejo-te novamente agora
Corri atrás de ti tu que sorrias
Para agarrar a minha juventude de outros passados dias
E tu tão serena depois de eu adormecer ficavas
Como uma flor amena que o seu perfume espalha
Entre outras flores silvestres de natureza campestre

Adormecido nesse jardim, de abelhas, rosas e alecrim…

ENCANTAMENTO


Vi nas tuas palavras nuas uma beleza imortal
Feitas minhas, feitas tuas, de Deus divino sinal
Vi essas palavras nas ruas, prenhes de desejo e vida
Esperanças de um outro passado feito à nossa medida
E olhava para o fundo desse poço que não parecia ter fim…
Por mim chamava conciso: - Descansa, vem, vem até mim…
Vem até esse paraíso…
Mas o paraíso não me chama assim com um sorriso…
Quero perder o meu juízo para apagar essa chama…
E sempre que esse chamamento escuto…
Não lhe dou sinal de o ter escutado
Seja inferno ou paraíso, seja loucura ou juízo…
Não vou a lugar algum, nesta vida…

Fico parado…

FLORES DE MAIO


Floridas no paraíso as rosas do meu jardim
De inebriante perfume chegam de manhã até mim
Libertam esse cheiro floral
Timidamente despertas
Umas são vermelhas de sangue
Outras da cor de poetas
Poetas cores de viajante…
De cores impossíveis
Negras, Azuis
Pretas
Indescritíveis…
Que passam de geração em geração

De mães para filhas e de avós para netas…

ESPERANÇA


Esperança num amanhã que se avizinha…
Esperança feita criança… minha…
Num filho meu, nesse desejo
De viver só mais um dia
Para lhe entregar um beijo
Um beijo de amor, de carinho
Com esse mesmo ensejo
Que uma luz antevia…
De amanhã ser outra vez criança
Para viver mais um dia
Como uma esperança que brilha
Num sol nascente

Tranquilo…

AMARGURA


Bebe mais um copo desse veneno
De corpo vermelho, de um trago
Nesse copo envenenado
Que cheira ao teu sangue ardente
Bebe!!
Bebe de um só trago…
Esse adocicado veneno
Que te deixa amargurado
Às portas desse INFERNO
Por ti tão desejado
Por ser esse SANGUE
VENENO…
Veneno Vermelho

Inflamado…

ESPECTROS


Etéreos, tão subtis espectros frios, etéreos
Pairam no ar levemente espectros da mente
Tão efémeros, tão voláteis, tão brilhantes
Feitos de plasma errante, tão surreais
Tão distantes… semeando espanto e terror
Nos corações obscuros…
Que dos espectros conhecem os murmúrios
Estarrecidos tão sofridos…
Espectros…
Tão brilhantes, tão efémeros
Hoje aparecendo pragmáticos
Amanhã… esquecidos…
Enigmáticos

MAGMA


De fogo feito, feito lava, feito pedra
Feito fogo que lavra, a terra líquida
Que o terror semeia em fogo
Em brasa…
Em fornalha acesa maternal
Que expelindo esse fogo
Feito lava, feito fogo, feito brasa…
Do útero da terra que arde
Parindo lava que escorre
Pelas paredes vulcânicas
Ardendo, ardendo, ardendo
Para um novo renascer como Fénix

Que se reconstrói das cinzas a arder…

MARÉ


Mar é o meu e o teu desejar
Mar é…
Mar é o meu e o teu sonhar
Mar é…
Mar é o nosso sentir
Mar é…
Mar que há-de vir
Mar é…
Mar que há-de subir
Mar é…
Que Mar há-de ser…
Mar é…

Até que eu deixe de ver…

FANTASIA


Nesse teu mundo encantado
Fui Fauno, fui Centauro, fui borboleta e Minotauro
Fui sonho, fui mar, fui rio
Fui Sol, calor e frio
Fui nuvem e ser alado
Nesse teu mundo encantado
Fui amante, fui cavaleiro andante
Fui unicórnio distante
Fui por ti desejado
Nesse teu reino encantado
Fui príncipe, fui rei passageiro
E tu minha querida amante

Foste para mim… o mundo inteiro…

EM CARNE VIVA


Fui do (v)entre da minha Mãe gerado
Em carne viva
Que crescia feito semente
Carne filha da própria carne e sangue
Fui crescendo lentamente
Consumindo, comendo essa outra carne
Em líquido amniótico imerso
Fui carne viva de viva carne
E tu meu útero materno
Eras tudo o que eu conhecia
Eras o meu universo…
O meu mundo negro
Feito poema

in.(V)erso…

VERÃO


Quente Estio de canículas feito
Agosto escaldante afoito
Dormente consequência que extravasa
Quando chega o caloroso Agosto
De fogo ardente ao Sol do meio-dia
Fazendo estalar o pasto assim aceso
Levantando o vento o pó da terra
Que se levanta rodopiando no ar em peso
E mais uma vez o ciclo se completa
Trazendo à terra esse calor
Descrito pela pena do poeta
Com o mesmo sentimento
E ardor…
Com que de Febre intensa

Nos infecta…

FLAMA


Chama que encarna desfazendo-se etérea
Consumindo o ar que a rodeia numa inflamada atmosfera
Subindo em golfadas quentes rodopiantes
Derretendo a cera, queimando o pavio
Escorrendo pela base de prata
Como se fosse um afundado navio
E sempre que essa vela se apaga
Rolos de fumo desfiam-se no ar
Num fio-de-prumo que sobe
Com um cheiro característico
De cera queimada a flutuar
Lembrando a flama ateada

Que se acendeu para queimar…

CRUXIS


Teu corpo nu em chagas
Vertendo sangue incolor
Abençoadas águas
Da tua vida em flor
Entregue ao Pai desfeito em lágrimas
Velado por tua Mãe aflita
Acompanhada por outras mulheres
Que choram em pranto… e Gritam…
Cheias de dor, cheias de mágoa…
Cheias de saudade, do teu sorriso…
Preparando-se para o sepulcro
Memória de uma outra memória de ti…

Eterno juízo…

PESCADORES


Por essas ondas cavalgando
Desfazendo as águas em prantos
De mulheres… lamentosas viúvas
Prometidas orações (de)vidas
Promessas a Santas e Santos
Percorrendo o areal costeiro
Perscrutando o mar inteiro
Do norte a sul de Portugal
O teu ventre imortal
Mar salgado que és…
Torna-se sepulcro final
De pescadores que se oferecem

Dançando hoje a teus pés…


Deseja aquilo que anseias
Acredita que irás ter
Vê o sonho concretizado
No corpo dessa mulher
Sente em tuas mãos essas carícias
Onde bebes esse sorriso
Perdido em mil delícias
Onde perdes o teu sentido
E no final se desejares
Se quiseres acreditar
Acredita que esse corpo
Já não é maré cheia

Mas sim… (L)uar…